08/02/2010
Concubina não tem direito a indenização por serviços domésticos
Concubina não tem direito a indenização por trabalhos
domésticos, após o fim do relacionamento com o cônjuge adúltero de outra. Por
decisão unânime, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou
indenização para aquela que manteve relacionamento com homem casado, uma vez
que a compensação financeira elevaria o concubinato ao nível de proteção mais
sofisticado que o existente no próprio casamento e na união estável.
A concubina do caso registrado em Dourados (MS), L.M. de O., além de não
receber a indenização de R$ 48 mil que pretendia do concubino, A.D., foi
condenada a pagar as custas processuais e honorários advocatícios, no valor de
R$ 1.000,00. Conceder a indenização pretendida, segundo o relator, ministro
Luis Felipe Salomão, seria “um atalho para se atingir os bens da família
legítima, providência rechaçada por doutrina e jurisprudência”.
Ameaça à monogamia
Em seu voto, o ministro Luis Felipe Salomão, citando Zeno Veloso, apontou a
proteção ao concubinato como uma ameaça à monogamia: “a união estável é uma
relação afetiva qualificada, espiritualizada, aberta, franca, exposta,
assumida, constitutiva de família; o concubinato, em regra, é clandestino,
velado, desleal, impuro. É um paradoxo para o Direito proteger as duas
situações concomitantemente. Isto poderia destruir toda a lógica do nosso
ordenamento jurídico, que gira em torno da monogamia. Isto não significa uma
defesa moralista da fidelidade conjugal. Trata-se de invocar um princípio
ordenador, sob pena de se desinstalar a monogamia”.
O ministro Luis Felipe Salomão também citou precedente relatado pela ministra
Nancy Andrighi, da Terceira Turma, pelo qual a indenização à concubina
reconheceria, em tese, uma dupla meação. “Uma devida à viúva, reconhecida e
devidamente amparada em lei. Outra, criada em Tribunais, como um ‘monstro’
jurisprudencial, a assombrar os casamentos existentes e fazer avançar as
uniões concubinárias, albergando-as e estimulando-as, ainda que a ideia
inicial do legislador tenha sido no sentido de não permear o instituto do
concubinato de efeitos marcadamente patrimoniais”.
O amor não tem preço
A relação da cabeleireira L.M. de O. com A. D. durou dois anos e ela alegou
que deixou de trabalhar por determinação do concubino, perdendo assim a renda
de R$ 1.000,00 por mês, daí o pedido de indenização ao final do
relacionamento. A 3ª Vara Cível de Dourados (MS) negou o pedido, afirmando que
não haveria prova suficiente de uma relação concubinária e estável. Houve
apelação e o pedido de indenização foi aceito, havendo, entretanto, redução do
valor para R$ 24 mil.
O relator observou que, no tempo em que os concubinos permaneceram juntos, A.
D. sustentava L. M. de O., inclusive ajudando-a no financiamento de sua casa,
mas que a relação entre a autora e o réu não possuía a solidez compatível com
o pedido inicial, tendo em vista que o réu sequer pernoitava na casa da autora
e, segundo os autos, esta “fazia sexo com o requerido em motéis ou quando
estava com ele viajava”.
Se o concubino houvesse retribuído patrimonialmente os serviços da concubina,
registrou o voto do ministro Luis Felipe Salomão que “tal ato seria passível
mesmo de anulação, já que pode a esposa pleitear o desfazimento de doações
realizadas no âmbito das relações paralelas ao casamento”.
O precedente de Nancy Andrighi acolhido no voto do relator também ressalta o
lado econômico: “Não se pode mensurar o afeto, a intensidade do próprio
sentimento, o desprendimento e a solidariedade na dedicação mútua que se
visualiza entre casais. O amor não tem preço. Não há valor econômico em uma
relação afetiva. Acaso houver necessidade de dimensionar-se a questão em
termos econômicos, poder-se-á incorrer na conivência e até mesmo estímulo
àquela conduta reprovável em que uma das partes serve-se sexualmente da outra
e, portanto, recompensa-a com favores”.
Coordenadoria de Editoria e Imprensa
Fonte: STJ:
http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=95850