23/09/2009
Acusados de assassinar líder indígena em Mato Grosso do Sul serão julgados em São Paulo
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a decisão da segunda instância
da Justiça Federal que determinou que o assassinato do cacique Guarani Kaiowá
Marcos Verón deve ser julgado pelo Tribunal do Júri da Subseção Judiciária de
São Paulo.
A decisão foi tomada no julgamento de um habeas corpus impetrado pela defesa
de Carlos Roberto dos Santos, Estevão Romero e Jorge Cristaldo Insabralde. Os
três são acusados de cometer uma série de crimes contra os índios Guarani
Kaiowá, entre os quais o assassinato do líder indígena, ocorrido em janeiro de
2003, na cidade de Juti, no interior do Mato Grosso do Sul.
No pedido de habeas corpus negado pela Quinta Turma do STJ, a defesa alegou
que o desaforamento (transferência) do julgamento da comarca de Dourados (MS)
para o Tribunal do Júri de São Paulo representaria constrangimento ilegal dos
acusados, uma vez que a decisão teria sido tomada com ausência de
fundamentação por parte do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região.
A defesa sustentou ainda que o desaforamento teria violado o princípio do juiz
natural e o artigo 427 do Código de Processo Penal, que prevê que a
transferência deve ser feita levando-se em consideração o critério geográfico
da proximidade das comarcas da mesma região. Com esse argumento, a advogada
dos réus pediu que a ação penal fosse julgada em outra subseção judiciária de
Mato Grosso do Sul próxima a Dourados ou em Campo Grande, capital do estado.
Acolhendo o parecer do Ministério Público Federal (MPF), responsável pelo
pedido de desaforamento, os ministros da Quinta Turma afastaram a argumentação
da defesa. Para eles, o julgamento dos réus não poderia ocorrer em Mato Grosso
do Sul porque existe suspeição em relação à imparcialidade dos jurados no
estado.
Ao proferir seu voto no julgamento, que foi acompanhado pelos demais
integrantes da Quinta Turma, o relator da ação, ministro Felix Fischer,
destacou que o caso sob apreciação insere-se num contexto “triste e
lamentável” de morte de pessoas por disputa de terras entre índios e
fazendeiros no estado.
Para o relator, a decisão do TRF 3ª Região relativa ao desaforamento do júri
foi acertada. Com base em informações constantes do processo, ele ressaltou a
existência de um clima de animosidade e preconceito contra os indígenas em
Mato Grosso do Sul, fato que retiraria a imparcialidade necessária ao
julgamento do caso.
Esse clima de animosidade seria consequência de manifestações de autoridades
públicas e de parcela da imprensa local contrárias a invasões de terra de
fazendeiros pelos indígenas. O ministro relator destacou a existência de uma
manifestação da própria Assembléia Legislativa estadual contra os índios
ocorrida em 2003, que aumentou o clima de hostilidade existente na região.
Nas razões de decidir, o relator apontou também como fator que poderia ferir a
imparcialidade do julgamento a influência política e econômica de Jacintho
Honório da Silva Filho em todo o estado. Patrão dos réus e proprietário da
Fazenda Brasília do Sul, local do crime contra o cacique, Honório também foi
indiciado por crimes contra os Guarani e está sendo acusado de manipular
provas falsas para beneficiar os réus.
O ministro Fischer ressaltou ainda que somente uma fundamentação idônea é
capaz de afastar, em casos de desaforamento, a competência da comarca mais
próxima do local original do Júri para outra mais distante. No entanto,
segundo o ministro, os fatos demonstraram que, no caso, o deslocamento do
julgamento da ação para São Paulo, cidade onde está sediado o TRF 3ª Região,
levará a um julgamento imparcial.
Os crimes contra os índios Guarani Kaiwoás ocorreram em 12 e 13 de janeiro de
2003. Acampados na fazenda Brasília do Sul em protesto pela demarcação da
terra indígena Takuara, eles foram atacados por quatro homens armados que
teriam sido contratados para agredi-los e expulsá-los do local. Armados com
pistolas, eles ameaçaram, espancaram e atiraram nas lideranças indígenas. À
época com 73 anos, Verón não resistiu às agressões e morreu após sofrer
traumatismo craniano. Ao todo, 24 pessoas foram denunciadas pelo MPF pelos
crimes.
Coordenadoria de Editoria e Imprensa
Fonte: STJ:
http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=93853